O Desbravador da Neve
Os ventos
uivavam ferozes pelos montes nevados da grande cordilheira de Jotunheim, para
todos os lados que a furiosa nevasca permitia olhar, tudo o que se viam eram as
incontáveis montanhas brancas, cada uma tão alta e imponente quanto a outra.
“Nesse ritmo
não chegaremos antes do anoitecer.” – Pensava Ulfric Olafsson, Capitão-de-Armas
de um dos grupos de batedores a serviço do Jarl Ivar Cinco-Dragões. As
montanhas no extremo norte de Norkslund, conhecidas como Jotunheim, eram os domínios
dos Jotun, os infames gigantes de gelo e , assim como seus habitantes, eram
perigosas e traiçoeiras. O que mais preocupava Ulfric, porém, não era a
terrível caminhada pelo terreno ermo, ele já havia vivido quase quarenta
invernos e era muito experiente em trilhar caminhos por montanhas tão selvagens
quanto aquela em que seu grupo se encontrava, o real medo do capitão eram as
criaturas que se escondiam naquele local maldito, dizia-se em Nidaros que as
montanhas de Jotunheim serviam de lar para bestas terríveis, trolls, worgs,
bruxas, feras devoradoras de homens e até mesmo para lendários dragões. Ulfric
já havia batalhado contra trolls e outras monstruosidades em sua vida, e
Dentegelado, sua espada de dois gumes, já havia se banhado no sangue de incontáveis
feras que ousaram cruzar o seu caminho, mas isso fora em outros locais, raras
vezes ele havia penetrado tão profundamente na tenebrosa terra dos gigantes
gelados e sempre o havia feito com a companhia de soldados mais experientes e
mais numerosos.
O capitão
coçou sua espessa barba loira, que agora já não possuía o tom dourado de
outrora e estava começando a ser marcada pelo branco que revelava os anos que
carregava nas costas, e tentou afastar de sua mente as preocupações que o
afligiam, afinal, era o mais respeitado batedor do Jarl de Nidaros, servia ao
seu rei havia muitos invernos e não seria agora que deixaria o medo dominar o
seu coração.
Virou a
cabeça para trás e observou através do elmo, com seus gelados olhos azuis, o
grupo que o seguia com dificuldade pela trilha na neve. Três batedores andando
em fila indiana; Bjorn o Baixo, com seus longos cabelos e barba negros, e que
facilmente deveria medir dois metros de altura, seguia na frente do grupo
carregando seu machado de cabo longo e suportando o peso da cota de malha que
vestia por baixo das pesadas camadas de peles. Seguindo ele estava Halfdan de
Opphaug, o mais novo do grupo com dezessete anos, de cabelos ruivos como a
curta barba em seu rosto, este levava uma espada curta e uma adaga presa ao seu
cinto e preferia se vestir com um colete de couro reforçado embaixo das peles
que o aqueciam. Atrás do jovem Halfdan se encontrava Fjalar Quebra-Crânios, um
homem baixo, mas muito forte, com cabelos e barba loiros, que devia seu apelido
à maça de ferro que usava em conjunto com seu escudo circular de madeira, no
qual havia pintado um crânio partido, vestia uma cota de malha por baixo de
peles assim como seu companheiro de maior estatura.
“Nenhum deles
viu muito mais do que umas duas dezenas de invernos” - Pensou o capitão do
grupo. Ele havia pedido aos seus superiores que lhe fornecessem batedores
experientes para essa missão, mas a grande maioria dos homens do exército de
Cinco-Dragões se encontrava na guerra que ardia entre Nidaros e Molde, ao sul, deixando
poucos disponíveis para os trabalhos dos batedores.
A jornada,
porém, não havia apresentado nenhum grande desafio até o momento além da
própria fúria da natureza. Os jovens batedores seguiam com dificuldade, mas
continuavam firmes em seu caminho, e o capitão estava esperançoso que eles
conseguiriam chegar até o seu destino sem maiores problemas. O objetivo do
grupo era alcançar um antigo templo, abandonado no alto daquela montanha, o
qual deveriam explorar atrás de quaisquer tesouros ou objetos mágicos que
pudessem encontrar. Os batedores de Nidaros freqüentemente exploravam a região
da fronteira com Jotunheim, onde era comum encontrar esse tipo de ruínas, a
exploração de antigas construções rendia muitos lucros e era comum que grandes
senhores empregassem seus soldados nesse tipo de serviço.
Aquela ruína específica
havia sido descoberta pelo grupo de Erik Sortudo havia três semanas. Erik
perdera dois homens lutando contra Jotunyns selvagens que habitavam a região e
então recuou de volta para Nidaros sem ter tido a oportunidade de entrar no
templo abandonado. O serviço, então, sobrou para Ulfric, que agora liderava um
grupo jovem e inexperiente nessa aventura.
- Não devemos
estar muito longe agora, acho que conseguiremos alcançar o templo nas primeiras
horas da noite se nós continuarmos sem parar. - Gritou Ulfric para Bjorn.
Naquela altura, com a fúria dos ventos e da neve, era preciso gritar até mesmo
para alguém que se encontrasse a dois metros de distância caso quisesse ser
ouvido.
- Vamos continuar
avançando mesmo após o anoitecer capitão? Não seria melhor procurarmos abrigo
contra a neve e descansarmos até o amanhecer para continuar a caminhada? – O
batedor parecia aflito com a idéia de andar por aquela região sem a, já bem
fraca, luz do sol.
- Não,
estamos com pouca comida, Bjorn. É melhor nos esforçarmos para completar esse
serviço o quanto antes. Podemos acampar e descansar no interior do templo
quando o alcançarmos. – A voz firme e autoritária de Ulfric não deixou dúvidas
quanto à sua decisão.
O grupo
seguiu caminhando tortuosamente pelo caminho na montanha. O vento arrebentava
contra eles furiosamente e era preciso se manter firme para não se
desequilibrar e cair na neve. Os batedores eram castigados pelo frio absurdo
que os afligia enquanto andavam, mas Ulfric continuava andando firme na frente
dos seus subordinados.
“Por Odin.
Somos escandinavos, não vai ser uma nevasca qualquer que irá impedir que alcancemos
nosso objetivo.” – Pensava Ulfric.
A noite
chegou algumas horas depois, e o grupo teve que acender suas tochas para
conseguir continuar a seguir em frente.
Ulfric
segurava sua tocha na mão esquerda enquanto caminhava pelo terreno nevado, após
sofrerem por mais algum tempo naquela caminhada desgastante, os deuses
agraciaram o capitão dos batedores com a visão de dois grandes pilares de
madeira se erguendo por entre a tempestade de neve.
- Bendito
seja Thor e seu martelo, chegamos às ruínas! – Gritou entusiasmado.
Atrás das
colunas de madeira se encontrava uma grande abertura talhada na rocha da
montanha, com inscrições no rude idioma gigante ao redor do buraco que se abria
para o interior do templo esquecido.
Ao se
aproximarem da entrada, os batedores viram uma grande escadaria que guiava para
dentro da ruína. A montanha em si, naquele ponto, oferecia certa proteção
contra a nevasca, de modo que o grupo pode fazer um breve descanso e se
alimentar antes de começarem a exploração em si. Após algumas horas
descansando, foi decidido que Bjorn ficaria do lado de fora da entrada,
cuidando da mula e dos suprimentos, enquanto os outros três entrariam na abertura
e explorariam o templo.
Ulfric
desembainhou Dentegelado e começou a descer as escadarias, iluminando o caminho
com a tocha em sua outra mão, logo atrás dele seguiram Halfdan e Fjalar. A
escadaria desceu até terminar em um largo corredor de pedras, as paredes negras
ao redor deles estavam talhadas com figuras demoníacas e antigas inscrições de
tempos esquecidos, um vento gelado soprava pela abertura no topo da escada e um
cheiro de morte preenchia o local. O corredor era bastante largo, de modo que
todos podiam andar lado a lado com folga, as paredes se estendiam por vários
metros de altura, tornando difícil enxergar o teto da construção.
Enquanto
caminhava pela extensão do corredor, Halfdan observava diversos esqueletos
caídos nos cantos. Esqueletos humanos, todos com armas e armaduras, restos de
antigos guerreiros a muito abandonados naquela escuridão profana. Ele decidiu
examinar um daqueles soldados caídos mais de perto e se aproximou de um dos
esqueletos, ele cutucou o velho escudo do morto com a ponta de sua espada curta
e foi então que pensou ter visto um leve brilho azulado no buraco vazio onde
havia sido o olho esquerdo do guerreiro. O jovem batedor se ajoelhou na frente
do esqueleto e tentou observar mais de perto aquela estranha visão que julgara
ter tido, foi então que o crânio do morto se mexeu, tornando nítida a luz azul
que saía de suas órbitas vazias e olhando fixamente o rosto assustado do
explorador, que só teve tempo de soltar um grito de pavor antes de o morto-vivo
brandir sua espada de ferro e desferir uma brutal estocada na sua barriga,
espirrando o sangue quente e tripas pelo chão gelado do templo.
No lado de
fora, Bjorn esperava pacientemente a volta de seus colegas, segurava firmemente
o cabo de madeira do seu machado, preparado para o pior. Seus instintos
bárbaros lhe avisavam sobre um perigo iminente. Foi então que ele vislumbrou
três vultos que se moviam pela neve, grandes demais para serem humanos, mas
ainda assim não se comparavam aos gigantes de gelo.
Os vultos se
aproximavam rapidamente, logo Bjorn pode perceber que se tratavam de grandes
homens, feios e deformados, os chamados Jotunyns, filhos amaldiçoados dos
gigantes Jotuns, que eram abandonados por seus pais e nunca chegavam ao tamanho
dos outros gigantes. Mesmo que fossem mais sociáveis e civilizados do que seus
pais, esses obviamente eram selvagens, bárbaros habitantes das montanhas, eles
vestiam peles de ursos e balançavam ferozmente suas clavas de madeira,
demonstrando ao guerreiro viking suas intenções.
Bjorn, em um
rápido movimento, desviou do ataque desferido por um dos monstros, deixando a
criatura em uma posição desfavorável e permitindo-lhe aplicar um golpe com seu
machado de cima para baixo, arrancando um naco de carne do braço da criatura.
Outro monstro avançou rapidamente sobre o guerreiro que começou a defender as
investidas da clava usando seu machado, mas os ataques eram muitos e muito
velozes e Bjorn logo começou a perder seu equilíbrio. A terceira besta
aproveitou a oportunidade e desferiu um violento ataque contra as costelas do
guerreiro, que rugiu de dor quando sentiu os ossos se partindo, nesse momento
ele abaixou a sua guarda e um dos monstros pode lhe dar um poderoso golpe de
clava contra sua face, destroçando os ossos de seu rosto e espirrando sangue
por todos os lados. Bjorn caiu desmaiado e as feras continuaram a espancar o
corpo do batedor até a sua morte.
Fjalar soltou
um grito de fúria quando viu o mais novo de seus companheiros tombar perante o
morto-vivo e investiu ferozmente contra o esqueleto, um rápido ataque lateral
de sua poderosa maça foi o suficiente para quebrar dezenas de ossos da criatura.
Quando os ossos caíram no chão, uma luz azulada escapou dos restos e desapareceu
no ar.
- Feitiçaria
antiga e maligna... A escuridão é forte nesse local, temo que ainda encontremos
coisas piores por esses corredores profanos. – Disse Ulfric para o amigo que
acabara de destruir o morto-vivo.
- Halfdan...
Ele está morto, Capitão... – Fjalar encarou seu comandante com um semblante
desesperado. – Precisamos retornar e enterrá-lo como manda a Tradição, e
abandonar essa jornada inútil antes que mais alguém morra. Pelos deuses, talvez
Bjorn esteja em perigo, ou até mesmo morto!
Ulfric lançou
um olhar duro e gelado para seu soldado:
- Não, vamos
seguir em frente, uma morte não é suficiente para acabar com uma missão dessa
importância. Erga sua maça e venha comigo, vamos continuar seguindo pelo
corredor.
Fjalar
obedeceu relutante e os dois continuaram a seguir pelo templo abandonado. Não
saberiam dizer por quanto tempo caminharam, poderiam ter sido minutos ou mesmo
horas, o corredor se arrastava frio e escuro pelas entranhas da montanha e o
silêncio era assustador. Finalmente enxergaram uma abertura por onde entravam
flocos de neve, ao se aproximarem, perceberam que se tratava de uma porta
aberta que levava para um largo pátio externo, o local era adornado por
estátuas, mas todas estavam em ruínas e uma grossa camada de neve encobria o
local. Na ponta mais distante do pátio, entre duas grandes colunas de madeira,
repousava um largo baú de ferro, adornado com as mais variadas gemas e pedras
preciosas.
- Acho que
encontramos algo interessante, vamos ver do que se trata. – Ordenou Ulfric.
Os dois
começaram a caminhar cautelosamente pelo pátio, foi então que ouviram algo, um
barulho altíssimo vindo das nuvens, um rugido feroz que fez com que ambos
sentissem arrepios. Eles se entreolharam apavorados, sabiam muito bem o que
significava aquele grito de fúria.
Antes que
pudessem correr de volta para o corredor, uma besta gigantesca passou voando
por cima deles e pousou no pátio. Um enorme dragão, com escamas escarlates e
garras negras, uma criatura tão magnífica quanto assustadora. Os dois guerreiros
ficaram paralisados de medo diante da criatura. O dragão então abriu sua boca e
lançou uma baforada de chamas na direção dos dois, que conseguiram desviar por
muito pouco.
Ulfric correu
para se proteger atrás de uma estátua, mas Fjalar ficou exposto no centro do
pátio e pouco pode fazer quando a gigantesca fera o atacou com suas garras,
dilacerando o seu corpo e tingindo de vermelho a neve que cobria o local. O
cadáver do guerreiro foi arremessado para longe com a força do golpe, se
espatifando contra a rocha da montanha.
O dragão
então voltou sua atenção para Ulfric, que corria desesperadamente para a saída.
O Capitão se virou e olhou nos olhos da criatura quando ela lançou um forte
jato de fogo na direção do viking, atingindo-o em cheio e queimando a sua carne
enquanto ele urrava de dor.
Ulfric jazia
deitado na neve, com o corpo queimado e sangue vazando de seus ferimentos. Ele,
porém, não estava morto. O guerreiro se levantou, sua cota de malha havia sido
destruída pelas chamas, mas sua espada estava firme em sua mão. O dragão olhou
para aquele homem como se não compreendesse o que havia ocorrido, Ulfric
gritou, um grito de fúria, de vingança, de guerra, morte e redenção:
- Valhalla!
O guerreiro
se lançou em uma corrida louca na direção da criatura. O dragão tentou atacá-lo
com suas garras, mas o Capitão desviou com maestria, aproveitando o momento
para, em um rápido movimento, enfiar Dentegelado na garganta da criatura. O
sangue da fera jorrou em grande quantidade da ferida, e o dragão tombou levemente
para o lado, Ulfric, então, brandiu sua fiel espada e começou a atacar o
pescoço da besta, vários golpes furiosos eram desferidos e o sangue do dragão
choveu sobre o pátio. Quando terminou, o guerreiro havia decapitado
completamente a criatura, a cabeça da besta jazia inerte no chão e Ulfric
estava banhado por seu sangue.
O Capitão,
exausto e ferido, também tombou na neve, sua respiração estava fraca, e seus
ferimentos eram gravíssimos. Ulfric fechou os olhos e pensou se sua hora de se
banquetear ao lado de Odin no Valhalla havia chegado... Não, ainda havia vida
nele, e seu compromisso com seu Jarl não havia terminado, ele não podia morrer
agora.
Ulfric,
então, rezou para Odin Pai de Todos, e esperou por um milagre.
O Arquimago.
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